domingo, 31 de dezembro de 2006

Com que frémito
as cinzas remexi
buscando a lágrima

Com que frémito
a ti Deus pedi
essa mesma lágrima

Escoando p'los meus dedos
as cinzas dos tormentos
de mias dores, sofrimentos
sómente cinzas e medos

O sofrimento da alma
como que um buraco negro
perde-se paz e calma
o terror invade, o desespero

buscando soluções
a esperança agarramo-la
mas até ela s'escoa
enquanto a dor ressoa
a dor é um eco interminável...

Zedlav

Nasci, hoje 26 de Outubro
quatro horas da madrugada
meu Pai ficou rubro
mais uma filha, só mulherada

Mais uma, a quarta filha
desgosto, buscavam o rapaz
Lúcia chamaram á migalha
assim entrei nesta família de paz

Mas logo em pequenina
fui um pouco aborrecida
minha Mãe seria madrinha
de casamento de minha tia
caso não tivesse nascido nesse dia

Anizabela, Elsa, Dady, Gi
minhas queridas irmãs
todas com forte temperamento
estão sempre no meu pensamento

Zedlav

Hoje o sol não me aquece
sinto tanta compaixão de mim
comigo ninguém se enternece
só sofrimento sem fim

Busco perdida meu norte
cansei-me de o esperar
nunca alcancei a sorte
perdi o norte de tanto me magoar

Zedlav

Cada pessoa um pescador
que nasce sem país escolher
cresce aí já pensador
se pobre for sabe que colher

O pobre, esse pescador
só riqueza sonha buscar
por vezes espezinhando
humilhando-se p'ra riqueza buscar

zedlav

Arrasto meu casamento
por esta estrada pedrada
arrasto-o com sôpro d'alento
como um peso p'la estrada

Ao seu peso vergo-me
rastejo para o arrastar
esfiapo-me p'lo caminho

Quantas vezes revolto-me
chego mesmo a me desprezar
por ele sinto pena e carinho

Arrasto meu casamento
penso...teus designios Deus
esta estrada é um tormento
segui-la-ei são desígnios seus

Meu casamento andrajoso
em bocados sangrentos
desprega-se qual leproso

zedlav

Mar sol que mistério
tu que te esfarrapas
em trapos na areia
que escalas escarpas
ecoando cantos de sereia

Meu sol que mistério
tu abrasas e me banhas
fazes-me sucumbir ao encanto
infiltras-te, escoas-te, brincas
enquanto com tua cor m'encanto

Zedlav

Meus olhos enganaram-se
na pureza dessa tua face
imanava paz e quanta...

Ao verem tal podridão
meus olhos esgazearam-se
daí ao deslace...um passo
a ti ninguém aturava,nem santa

Mas para qu~e incomodar-me
com essa tua existência
sim faço parte dela, infelizmente
mas já nem posso dizer paciência

zedlav

Afinal o que é a vida?...
será a busca constante
da paz, da alegria?...

Como será isso possível
Se a vida é dura implacável
por mais voltas que se dê
horizonte limitado só se vê

Como gostaria de ser calma
estou a tornar-me um ser patético
finjo ser feliz, finjo tudo
mas sou frágil, tudo p'ra mim é trágico

Qualquer dia sou velha
terei cemm anos e...
e nada mais haverá
nenhum futuro me sorrirá

mas que quero da vida afinal?...

Zedlav

Vivo perdida no labirinto
da magia, das emoções
na confusão que sinto
presa em tantas emoções

quero apenas o descanso
o silêncio eu busco...
só no escrever alcanço
a verdade m'assusta

Vida-apenas a passagem
eu... triste passageira
nunca cheguei á outra margem
sómente da dor mensageira

quiz, sonhei, lutei
p'lo caminho m'enganei
amor, dinheiro, paz
nada, tudo se desfaz

zedlav

Pedi-te um beijo
recebi um bocejo
pedi-te um amor
deste-me mia dor

Hoje que sou hoje
uma flôr, um orvalho
uma haste quebrada
uma mentira que foge

Rio loucamente
loucamente não sorrio
finjo doidamente
quem não tem amor
não tem alento

Zedlav

Que mais terei de penar
se já nem sei mais rezar
tanta revolta, que fazer?
ciume não mais quero ter

Vou voltar a adormecer
a voar no pensamento
pois não voltarei a sofrer
por este ambiguo casamento

Vou voltar a querer
correr, minhas angustias esquecer
meu amor, tão lindo amor
acabou, com mais esta dor

Mas sinto a leveza no ser
a liberdade o prazer
é lindo voltar a viver

Cansei-me de dramas
de berros, de conflitos
não interessa s'algo escondes
são-me indiferentes teus gritos

Silêncio...
Silenciar todos os sentidos
Silenciar e amordaçá-los
enfim
Silêncio

Zedlav

Só o murmurio do mar
o vento cortante
na noite sem luar
o silêncio é fascinante

O coração bate descompassado
o terror que o dominou
no longíquo passado
a recordação que o aniquilou

Os dias passam
velozes como o vento
vazios como as nuvens
ensolarados, desesperam

Em redor a rotina
o silêncio, a vida
dentro de mim
uma angustia sem fim

Zedlav

Absurdo pensar qu'alguém
nos atrairá eternamente
o gostar é certamente
a nuvem que vai e vem

P'ra quê pensar, pensar
que o mundo irá desabar
ridícula a metamorfose
de quem do amor toma uma dose

Ficamos néscios, apalermados
supondo que todos querem pedaço
quando nos olham, sim, apiedados
por t~ermos uma cara de asno

E lá vamos curtindo o amor
felizes de têrmos ciúme e dor
senão fizesse a felicidade
ninguém diria "morro de saudade"

Saudade de quê?! Porquê?
do telefone que não toca?
da raiva da discussão?
ou talvez da outra?...

Um sem fim de saudades
da traição, infedilidades
talvez da grande decepção
que atingiu o musculo do coração

Zedlav

Chora Lúcia, chora
tua alma destroçada
teu engano, tua dor
estes anos de horror

Chora Lúcia, chora
tua família banida
por este miserável
a quem p'ra sempre unida
tornou a vida detestável

Chora Lúcia, chora
a sua infidelidade
... , a violência
sofrendo com humildade
na esp'rança buscando paciência

Chora Lúcia, chora só
buscando afago p'ra tuas penas
no luar, nas estrelas
redimindo-me em ti Deus

Zedlav

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Quem é quem
atrás de um fogão
cansada, esmorecida
sempre porém
com o esfregão na mão
o tempo correndo
a vida fugindo
o ferro, a roupa
cose, sempre cosendo
arrumar as mesmas coisas
dia, dias, dias...
as crianças berrando
seu rabito limpando
seu banho dando
limpa porém
o livro marcado
á noite lido
quando o corpo batido
cansada, partido
tudo dormindo
5 minutos p'ra mim
Quem é QUem
quem nos acha alguém
se nossos olhos sem brilho
de tanta porcaria limpar
sem ordenado, sem agradecimento
sem com quem dialogar
só com o ESFREGÃO
esfregar o chão
o balcão
a louça limpar
comida a cozinhar
carrer, limpar, limpar...
Quem é QUem
Meu Deus

Zedlav

Sinto-me caindo
desligada de tudo
meu orgulho submergindo
calando este ódio mudo

Vejo este atoleiro
esta miséria de gente
se gente a isto se chama
e como mó de moleiro
esmigalho-me de frente
este amor qu'ainda clama

já não encontro novidade
neste fio tão emaranhado
nesta vida de ambiguidade
foi sobretudo um sonho falhado

tudo, tudo finda
nasce, morre
começa, termina

Zedlav

Tudo m'acorrenta ao mesmo tempo
já nem meu pensamento é meu
dia a dia somente contratemtpo
e o medo de quem tudo cometeu

quem dera alguém m'entender
talvez tu, talvez já ninguém
e esta ânsia tamanha que m'consome
Deus meu por tudo quanto desdém

Como seria tão bom
que existissem asas
asas do esquecimento

Embalar-me nelas
pois tanto tenho a esquecer
esquecer tanto sofrimento

Voaria para a paz do espaço
livre de tantos pensamentos
que magoam, m'entontecem
livre enfim sem tormentos

Zedlav

grilhetas

Olho e este céu plumbeo
ainda mais m'entristece
só o enigma deste néscio
que de nada se compadece

o riso solto a alrgria
tudo, tudo a pouco se perdeu
o hoje, o ontem, o amanhã só me fere
toda a minha vida se desvaneceu

è só limpar, limpar
harmonia nem sombra dela
amor é uma ironia
respeito sómente uma palavra bela

Mas nem assim me compadeço
de mim própria, desta amargura
sinto ainda mais orgulho, nada peço
calo-me, calo tanta desventura

Mas esta prisão que corrói
estas grilhetas qu'apertam
apertam ainda mais dia a dia

Sinto que sufoco quero ar
mas penso tanto ainda em ti
porqu~e, porque teve de ser assim

zedlav

Afinal o que é a vida?...
será a busca constante
da Paz, da alegria?...

Como será isso possível
se a vida é dura implacável
por mais voltas que se dê
horizonte limitado se vê

Como gostaria de ser calma
estou a tornar-me um ser patético
finjo ser feliz, finjo tudo
mas sou frágil, tudo p'ra mim é trágico

Qualquer dia sou velha
terei oitenta anos e...
e nada mais haverá
nenhum futuro me sorrirá


zedlav

amigos do além

Num dia de sol
em que tudo começou
o vento passava
duas vidas s'esfumaram
e a vida continuou

Novo dia de sol
novo desastre chegou
entre a espuma do mar
outra vida s'esfumou
e a vida continuou

Outro dia chegará
e Deus perdoará
os erros dos jovens
e homens de amanhã

Novos dias chegarão
com risos e cantos
mas a vida que passou
o coração não apagou

Sempre chorando
a ferida mais dói
por isso cantemos
todos em coro
"Ressurreição" recordando

para 3 amigos mortos meus 1ºs poemas

Ser verdadeiro
Mas o que é a verdade?!
É a verdade que se dá aos factos?
A forma convicta como se dizem?
Ou será a forma de iludir os outros?

Zedlav

A discussão surgindo
d'um estado sombrio
a raiva submergindo
chega o ódio fugidio


turvos caminhso
tão duros tempos
ai daqueles qu'amam
pobrezinhos...
nunca têm seguros portos

sinto a providência
abandonando-me...
quisera anjos velendo-me
nunca encontro tolerência

zedlav

raiva

Vou lendo, lendo...
página a página devorando
sugestões querendo
antes que esquça o memorando

fecha-se a noite, abre-se o dia
que impressão me redime
olho o mar, busco o sol, o alento
quanta esperança baldada

Que é da alegria? O vulto dela?
p'la minha porta nunca passa
se passa é fugaz, como conhecê-la?

Quanta esmola vertendo
ninguém alcança, ninguém alumia
a procissão segue lá longe

Os humildes rastejando
suas mãos Deus procuram-seu guia
os fortes inculcam o mal qu'ingente alastra

E o sonho dentro de mim
qual preságio temeroso
maldições sem fim
neste mindo pavoroso

Dá-se honras a promiscuidade
alardeiam mulheres a sua imoralidade
chocam nossos principios d'civilização
asteiam sua bandeira de conspurcação

Ombreiam junto a nós
toldam nosso céu limpido
carne putrefacta sóis vós
zombam escarnecem do cupido

zedlav

grilhetas

Sou a mais triste das vagabundas
quiz tanto achar pobres caminhos
participar plenamente por esses mundos
mas enfim, nada sou como as andorinhas

Como algo que se cruza sem se ver
desiludida...desencantada...
vou vivendo sempre com este temer
por este homem de quem fui apaixonada

Noto com demasiada brusquidão
que sou um trapo em sua mão
repudiada com a máxima agressão
acariciada aquando de sua tesão

Choro sempre minha triste sina
desdita, sorte o que lhe queiram chamar
p'ra mim é tão infernal esta vida
que sinto labaredas me queimar

Vagabunda eu sou neste mundo
pois trabalho de doméstica ninguém vê
vou errando por este lar tão mudo
tão infinitamente triste que nem futuro prevê

Zedlav

Uma quimera dourada
uma paixão de verão
que na areia amarelada
Fenece-lá diz o refrão

Uma paixão abrasadora
que dia após dia floresce
que maravilhosa aventura
mais um sonho qu'esmorece

Só a recordação ficou
para o vazio preencher
da quimera algo restou
experiência p'ra não voltar a acontecer

E de novo nos aniquilamos
com a rotina do dia a dia
de nada vale nos rebelarmos
perante a impalpável monotonia

zedlav

Grilhetas

Passos, sómente passos
d'uma vida errada,sem prestígio...
Eu que quiz ser mulher prodígio
aqui estou em pedaços!...

Desisti de tantos caminhos
mesmo antes d'os encetar
medo, querendo pergaminhos
só esta cobardia m'aniquilar

Virei página, sobre página
dia a dia abandonei-me
soa triste minha sina
mas hoje de tudo culpei-me

Quiz esposa ser, casta
no sonho, na imaginação
mas a rebeldia alastra
estoiro de tanta indignação

O amanhã soa igual a hoje
já não há livros nem nada
só humilhações em meu alforge
e esta sensação d'abandonada

zedlav

domingo, 24 de dezembro de 2006

Meu Natal
novamente chegou
o meu Deus trás-me um presente
as recordações da minha infância
da minha Bélita, de meu pai
de minha avó...de todos nós
meu natal quente
naquele lar para sempre perdido
onde eu acreditava no pai natal
e os bolos tinham outro cheiro
o presépio era o mais belo
a arvore de natal resplandecia
e eu hoje aqui estou só só só
tão só e já nem as lembranças tenho
para atenuar esta solidão
zedlav

Quero o teu som
o teu cheiro em mim
ouvir a tua voz no silêncio
que em mim fazes
quero o deslumbre
as estrelas, o céu
o teu abraço quando choro
quero sussurrar-te
tanto e nada
quero a nossa musica
a tua mão na minha
e o teu colo
quero chorar por nada ter
porque a brisa te levou
e em mim até o teu cheiro
lentamente s'evaporou
quero tão sómente quero
Zedlav

Busco o verso perfeito
ou quiça a perfeição
nada consigo a preceito
vou riscando por exclusão

busquei na vida sim
dela quiz a perfeição
quando vi qu'ao excluir assim
nada sobraria então

mas o verso perfeito
quiz buscá-lo, fazê-lo
não consegui, ficou desfeito
antes mesmo de tê-lo

meu verso seria perfeito
se os céus s'apiedassem
nossos mundos s'unissem
seria feliz, seria um deleite

zedlav

Minha tristeza incomoda
meus versos repletos dela
deles todos fogem!...

Mas porquê?Se não é sórdida
são versos que não são lindos
mas a ninguém destroem

Só a mim destruíram
não os versos,as pessoas
mas porque deles fogem
eu tive de ter muita coragem

Não para os escrever
nem para aqui os editar
mas para não morrer
por tanto ter de lutar

se são tristes eu sou isso
pois sou isso que escrevo
isto é parte de mim, disso
ainda bem que a mais não m'atrevo

zedlav

Bélita minha mana
o vento, a brisa
ainda me trás
o som da tua gargalhada

Zedlav

Oh mar porque levaste
tão cedo o meu amor
e venham deuses do Olimpo
diabos do inferno

Oh sol porque despontaste
porque abristeis as rosas em flor
se de mia alma não limpo
este amor tão eterno

os sinos repicam
as luzes as ruas encharcam
a chuva volta a cair
eu amor não mais pude sentir
Zedlav

raiva

Muita confusão deu
por sómente uma alma
ruim, ixecrível dissecar
imagina que direi de ti

vi eu essa pobre alma
zunindo em minha volta
primeiro senti piedade
depois nojo por ver esta alma

descrevi-a tal como me pareceu
hoje ainda mais a pinto e na calma
o ódio pegajoso 'stá sempre a boiar
alma drástica eu de ti vi

todos os baixos sentimentos na alma
eu vi em ebulição e há solta
debaixo de capa de gente e honestidade
assustei-me de ver ignóbil alma

com máscara petulante
passeando pelo mundo
hei-de conseguir ver-te no fundo
por trás dessa pele de arrogante

esconde-te na sombra por Deus
tua pestilência meus dias
não mais assombrarão
pois dias duros passei que não esquecerão

preocupa-te em desapareceres
sem rasto pois t'encontrarei
digo isto para t'aperceberes
que de ti me vingarei
gentinha tão vil eu nunca conheci

zedlav

Serei eu de alguém?Só de ti mar
que meus pés acaricias
que ouves meus lamentos
que me dás paz com teus movimentos

tu, alguém que me quisesse
teria de ser noite e lua
alguém que feliz me fizesse
e eu senti-se prazer em ser sua

alguém que seu nome soa-se
nas folhas pela brisa agitados

Zedlav

raiva

De manhã demoro horas e horas
a arrtanjar-me, fico baralhada
tudo me é esquisito...
mas logo entro na rotina diária

são tantas as modalidades
provas de fogo pelas quais passo
o que incomoda é que sempre m'atrazo
não consigo falar de saudades

porque não as tenho"saudades"
é a verdade nua e crua
tudo para mim são novidades
aqui estou só, como sempre estive
mas pelo menos não sou invisível
quero uma vida novinha, se possível

vou dedilhando meus dias tão breves
tentando olvidar tudo de bom e péssimo
vejo que mia cruz feita de penas duras e leves
a tento arrastar só sempre só até ao cimo

Zedlav

raiva

A brisa passa teu nome soletrando
é um sussurro plangente
irónicamente a mim perguntando
se por um acaso ainda sou gente

as folhas pelo vento tangidas
teu nome balbuciam timidamente
por mim ficam compadecidas
pois sabem que sofro tremendamente

a brisa comigo parece brincar...

quiz um mundo de perfeição
em que tudo fosse luz
em que a bondade fosse hasteada
como a unica bandeira d'eleição

quiz um mundo de verdade
onde só existisse honradez
cai num onde só a vaidade
entra em conflito com a lucidez

a brisa comigo parece brincar...

zedlav

raiva

Ai...oh como sou leve
uma gaivota, ai uma gaivota
planando ao sabor do vento
deixo-me solta como um sustenido
ai...como entendes
que delírio é estar solta
ser tudo e nada ao mesmo tempo
voo, rio, tudo m'encanta
porque tudo é precioso
tanto brilho m'ofusca

zedlav

sábado, 23 de dezembro de 2006

raiva

Nesta solidão a que m'arremeto
a quem não permito ninguém entrar
em que meus pensamentos suicidas
vêem e vão como as ondas do mar

quedo-me tão só que as trevas
baixam, enroscam-se, abraçam-me
pegajosas, arrastam-se como larvas
os pensamentos trucidam-me

sei quanto o mundo me decepcionou
ainda criança dele nunca gostei
mas quanto mais vivo,dele mais m'enfastiei
só a solidão nunca me decepcionou

não me digam que são tolos romantismos
tenho os pés bem assentes na terra
este diz que diz de que sempre m'afastei
este viver p'ra aparência que sempre detestei

e rio de gentinha que vive para as marcas
e que só delas sabe falar
mas no final do mês é o cartão de crédito
leva-lhes o ordenado e os consegue calar

é um mundo de .....
este que não quiz, que não escolhi
é melhor ficar por aqui
e continuar a fingir que sou lerda

Zedlav

raiva

Hoje ouvindo as palavras proféticas
sobre o medo qu'as pessoas têm do fim
também reparo como se tornam patéticas
quando velhas todo o dia acham que é o fim

Fazem julgamentos sumários
pavoneiam-se, agarram-se a bens materiais
quando idosas agarram-se a breviários
mas nunca esquecem de destilar a bilis

bilis venenosa a da difamação
vejo-as curvadas buscando
sei lá, talvez o perdão
mui beatas por tudo penitenciando

Zedlav

raiva

Choro na madrugada
porque já não vejo o dia raiar
porque já não vejo a noite enluarada
porque já não sei sonhar

Perdi-me ao ver tanta maldade
mia alma repugnou-se
de tudo e todos deixei de ter saudades
mia pobre alma decepcionou-se

Os acordes de musica cessaram
o sol nas nuvens escondeu-se
meus olhos não mais carpiram
mia inocência para sempre perdeu-se

por um punhado de gentalha
oriundos da terra que tanto amei
terra que quiz que fosse mia mortalha
terra po quem tantos anos a fio chorei

Zedlav

raiva

As vozes...o mundo calou-se
este silêncio imenso esmaga-me
este cerco de desespero apoderou-se
esta infinita tristeza abraça-me

É como uma hera que s'enrosca
....esvazia-me...
zumbe á mia volta como uma mosca
a tristeza desafia-me...

Sentimentos galopam
vêem e vão, ensurdecem
disparam...
bons, maus saem...

Tento em vão tudo banir
Durante meus dias sorrir
mas com que prontidão
eles regressam e não mais vão

Leio antigos poemas
ouço as vozes dos que se diziam meus amigos
rio...entristeço com os temas
hoje penso, que amigos tão ambiguos

Por tempos com tanta pseudo amizade
pensei ser feliz, um ser especial
com eles recordei momentos de saudade
afinal era eu a unica amiga leal

Cabisbaixa ao meu mundo regressei
ao sol saí por breves instantes
afinal este mundo é como pensei
repleto de gente inconstante

Neste mundo de palavras em que vivo
de livros, de poemas e solidão
de lógicas matemáticas
serei feliz?Ou sobrevivo?!...

Zedlaz

raiva

Chora coração, chora
uma vida de desgraça
onde o sonho já não mora
nem a humilde aventurança

Mias mãos outrora
repletas de sonhos
esvaziaram-se.......
meus olhos já nem vêem a aurora

Eu que tinha o raio de sol
da varinha mágica o condão
tudo se misturou num rol
tudo s'amortalhou no caixão

zedlav

raiva

E tu ...

Em quem um dia acreditei
vejo tua face exangue
face essa que tanto beijei

Infame, cínica, mentirosa
ultrajas-te vilmente o amor
serás maldita e desditosa
na solidão ficarás cheia de dor

Os dias passarão lentos e preversos
as noites geladas assombrar-te-ão
com fantasmas do mal que me fizeste
buscarás infrutíferamente o meu perdão

Bani-te da minha vida
outrora para mim tão querida
traiste-me, ofendeste-me
de mim estás banida

Só quando morreres paz terei
assim eu não mais te verei
que o inferno t'amortalhe
que a dor da memória não te falhe

Zedlav

raiva

Há-de o dia chegar
em qu'a espada da vingança
da revolta há-de segar
espero essa bem aventurança

Por ora pacientemente
os dia, meses vou vendo
passando negligentemente
a amargura vou absorvendo

Nas asas da intempérie
deixei-me nostálgica ir
enquanto observo a barbárie
tão tolamente sorrir

E a derrota de mim não faz parte
da vingança que Deus não m'aparte
e por esse dia espero na calmaria
olhando o sol e a noite de cada dia

E quando a espada bramir
ouvirei soluços e gemidos
e por ora os que podem sorrir
chorarão na dor feridos

Zedlav

raiva

Deixei-me de escrever versos
quiz tanto isso bloquear
tornar os cantos submersos
e romantismos humilhar

Mas eles vivem em mim
tamborilam ininterruptamente
emergem num desassossego sem fim
e eu submeto-me a eles plenamente

Ao deixá-los de mim sair
sinto uma leveza...paz
deixo-os um a um no papel cair
mas em mim sempre algo se desfaz

zedlav

raiva

Meus dedos esta pena arrastam
desenhando letras sem cuidados
deixando a tristeza falar
de mia vida de tristes fados

Deixo-a correr célere
rabisco, letras juntas
soltas, espantar a dor quer

Como meus dedos queriam
voar, soltar-se deste mndo
sei que felizes então seriam

Pouco a pouco as letras misturam-se
tentando um lógica óbvia
mas tão logo separam-se
juntar-se-ão todavia

Zedlav

raiva

Céptica quanto á humanidade
é o que sou o que sinto
tanta mas tanta indignidade
observo,já nem a pressinto

Nada me surpreende
porque em nada confio
com os anos tudo s'aprende

Os tambores da revolta
da guerra, da morte
em meu redor retumbam
por vingança ecoam

olho para trás e sorrio
e espero...espero...espero...
e pacíficamente espero
sei que não tardará e sorrio

E quando o dilúvio chegar
quero ver, quero bem olhar
a humilhação e a dor
patenteados em esgares de horror

levantar-me-ei então
e pacificamente continuarei
pois este mundo eu olharei
com todo o meu cepticismo

P'ra mia guitarra voltarei
olharei o céu e o mar
acordes nela dedilharei
já que não posso mais sonhar

Sentada em meu terraço
junto a sinfonia á do mar
porque saberei sempre o que faço

Dedilho uma nota e outra
no ar volteiam e desfazem-se
ao longe ainda ouço
meu coração a bater

Estrangulo o estupido soluço
que nunca deixarei sair
tanto queria ainda sonhar
porque em mim tiveram de o matar

Zedlav

raiva

Mia vida, meu veneno
repleta de passados
de tormentos, d'ambiguidades
de medos, de nostalgias

Chafurdei no inferno
de sonhos recalcados
desligada de saudades
das noites de vigílias

Mia vida, meu veneno
que carrego sem vacilar
uma vida de demo
que nunca me fez oscilar

E sigo estrada tortuosa
com orgulho e valentia
por vezes tão dolorosa
sem os encantos da fantasia

Aninho-me e busco-te
em meus momentos de solidão
que cada vez são maiores
meus momentos de meditação

Zedlav

raiva

Mas mia alma voou
de tanto chorar findou
quiz os cacos colar
em poemas a dor satirizar

Mas nem isso sobrou
só esta horrenda tristeza
de quem no mundo confiou
e dele só recebeu baixeza

Que o meu Deus s'apiede
da maldade, da crueldade
de gente que suas almas fede
porque em mim já não há piedade

Zedlav

raiva

Ouve mia alma chorar
Por ti,por mim, p'lo mundo
Esta tamanha dor gritar
Este soluço tão profundo

Mia alma derreteu
Com lágrimas quentes
Choro porque ela feneceu
P'Las maldades de tantas gentes

Ouve mia alma que chora
vejo-a perante mim elevar
dentro em mim nada mais mora
Nem o querer me matar

Quero o fim da poetisa
Onde o sonho traz a imaginação
Em nossos dedos o amor desliza
Enquanto voa o nosso coração

Zedlav

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

A dança incessante
Das pás dos moinhos
Criam uma canção
Que fala de paixão

Todo o dia dançam
Pelo vento fustigadas
Músicas qu'embalam
Enquanto moem trigos dourados

Choram por outrora
Ou riem loucamente
Logo pela aurora
Cantam delicadamente

Cantam lendas esquecidas
Estas pás de moinhos encantadas
Soletram poemas adormecidos
Batalhas d'amor esquecidos

Perdi-me no oceano das emoções
pensei vislumbrar a quietude
não me detive em divagações
como era leviana a tua atitude

Deixei-me nesse oceano embalar
sem tempestades, sómente magia
recolhi o pôr do sol p'ra mais amar
limitei-me a viver o dia a dia

As redes de meus sentimentos lancei
ao ar, ao vento, a ti mar...
meu mundo á vela do sonho levei
mas quando as recolhi... só ar!!...

Nesse oceano continuo-me a embalar
há muito não deito as mias redes
esburacadas, não as quero remendar
a ti m'entrego ó Deus que tudo vedes

O pôr do sol á tanto desapareceu
e este oceano sem mais emoções
suas águas sem sonhos escureceu
é tempo do esquecimento, de perdões...

É tempo de doar, de recolhimento
já não o devo ter muito, que pena
tanto tempo de dor, de sofrimento
quero agora um tempo de vida amena
Zedlav

O vento bateu na minha janela
abria de par em par...
afinal não eras tu, era o ar
eu continuo em minha cela

tanto me prometeste, tanto
que aqui me quedei esperando
por ti cântaros enchi de pranto
já não tenho esperança, só desencanto

Mas o vento bate em minha janela
e eu busco o vulto na noite cerrada
dentro do silêncio de mia cela
sei que não virás nunca, estou errada?

Mas meus passos buscam o caminho
mesmo sabendo que não há esperança
quem sabe senão t'encontro carinho
ou ficará só a lembrança...

Para quem tão pouco teve
e a quem tanto prometeu
busco o som na janela ao de leve
serás tu, ou o vento que bateu?...
Zedlav

O gemer do vento, vago e triste
Qu'entristece mia alma tão triste
que tanto esperou p'lo amor
trajou-se de luto e de dor

Os raios de sol apagaram-se
a pouco e pouco e escureceu
as estrelas e o luar desapareceram
o mar só ele restou p'ra m'acompanhar

Mia voz rouca finalmente
calei...calei...calei...
e o gemer do vento, vago e triste
assemelhou-se á mia dor e chorei

Já não pinto o sol em mias telas
nem o céu, nem o arco irís
a morte impressa nelas
das cores garridas me desfiz

Deixei o vento em mim gemer
Mia dor a ele juntei
o riso da tristeza...a lembrança
já nem a desmaiada lembrança
Zedlav

Memórias de meus olhos
segredos de mia alma
juntei-os aos molhos
deles fiz uma só palma

Cheiros que á tanto evaporaram
terra vermelha nunca esquecida
montanhas que ao céu s'ergueram
planície verdejante adormecida

Com as saudades teu chão reguei
mias lágrimas em teu chão não caem
em mias mãos não mais a terra peguei
não há canticos qu'esta tristeza calem

Memórias de meus olhos
a vida que lá atrás ficou
qu'eu atei em molhos
uma palma fiz e comigo finou
Zedlav

Quiz tanto ser apenas mar
mas se o fosse mãe não seria
nem amar eu saberia
nem meus filhos aconchegar

Quiz tanto ser apenas mar
que meus olhas d'água rasos
de alegria por meus filhos olhar
mia espuma seus gestos carinhosos

Quiz tanto ser apenas mar
que em mias redes agarrei
o segredo de meus filhos amar
ser mãe é o que fazer bem sei

Quiz tanto ser apenas mar
que quando chegou a maternidade
a água de meus peitos soube dar
dentro de mim o mexer da saudade

Quiz tanto ser apenas mar
que as estrelas lhes quiz oferecer
mas soube somente amar
e a palavra mãe em mim recolher
Zedlav

UM DIA UMA PÉTALA
D'UM RAMO TEU COLHI
E ESSA MESMA PÉTALA
QU'EM MEU PEITO RECOLHI
FAZ A MINHA TRAVESSIA
POR ESTE MUNDO
SEM TANTA AGONIA
JÁ NEM HÁ SOFRER PROFUNDO
TUDO POR UMA PÉTALA
QUE DE TEU RAMO COLHI
POR ISSO ESPERO-TE
NESTE CANTO QUE ESCOLHI
COM ESTA IMENSA AMIZADE
QUE CONTIGO TAMBÉM APRENDI
Zedlav

Com um café na mão
voando com a musica
dou asas á imaginação
deixo a veleidade mística

Elevo-me até a ti
agarro-me á tua essência
vazia eu me senti
com a dolorosa ausência

Não quero mais recordar
e quando meu sonho s'alonga
quimeras ja deixei de tecer
p'ra trás deixei o poder d'amar

Meu sonho viaja sózinho
outrora tão colorido
mas o mal nele advinho
desse amor tão sofrido
Zedlav

Enquanto a chuva cai
meu pensamento vagueia
numa terra de ninguém
mia alma por ti anseia

Enquanto a chuva cai
o pensamento s'encaminha
p'ro silêncio do meu destino
em mia alma ele se aninha

Enquanto a chuva cai
lavando mias lágrimas
côlho em meu colo
tristeza que nunca se vai

Enquanto a chuva cai...
Zedlav

Os dias no calendário passando
Como gotas d'orvalho caindo
Sigo a vida tentando não pensar
Mas com mia consciência agindo

Céptica quanto á humanidade
Meu caminho firme vou pisando
De quase nada guardo saudade
Os dias no calendário vou riscando

Sorrio á adversidade
Disse adeus á insegurança
Quando deixei partir a confiança
Bloqueei a humildade

As folhas do calendário
Vou pacientemente rasgando
A volta da vida ao contrário
Aqui me quedo esperando
Zedlav

PARA TI MANA

SE TU NÃO EXISTISSES
P'RA QUE EXISTIRIA EU?
SE OS PIMEIROS PASSOS
NÃO ME ENSINASSES
COMO HOJE SERIA EU?

EXISTO PORQUE EXISTES
POR ESSA IMENSA AMIZADE
P'LO OMBRO ACONCHEGANTE
P'LAS MEMÓRIAS DE SAUDADE
P'LA GARGALHADA CONTAGIANTE

POR EXISTIRES HOJE
MINHA ALMA REJUBILA
POR NA VIDA NUNCA
MAS NUNCA TERES FALTADO
ESTE DIA É TÃO COMEMORADO

OBRIGADA MINHA MANA QUERIDA
POR ME TERES DADO TUA MÃO
EM TANTOS MOMENTOS REQUERIDA
SEMPRE DADA COM O CORAÇÃO

PARA TI MINHA MANINHA COM TODO O MEU AMOR

Zedlav

Dorme poetisa
sem sonhos, sem pesadelos
dorme poetisa
sossega tua vida de flagelos

Já não sonhas com amor
já não te sobressaltas
quando ao longe vem a dor
já de nada sentes falta

A ténue felicidade
bateu tão de raspão
que nem sobrou saudade
mas encruou teu coração

Niniguém por ti velará
dorme poetisa sem fados
o vazio sempre d'amor falará

E o caminho que te falta percorrer
sem labirintos, nem metas
já nem esse o podes escolher

É tão nu
tão desprovido de beleza
tão desértico, tão cru
percorrê-lo-ei então com leveza
Zedlav

Um dia disseste-me
que só a mim amavas
um dia juraste-me
amor eterno, palavras!...

Palavras quando juntas
fazem um todo romantico
palavras levadas p'lo tempo
levianamente proferidas

Quisera ser cigana
ler em teus lábios a mentira
ler em tua mão profana
eu não me enganaria
Zedlav

Dá-me a tua mão
neste dia, nesta hora
não, não a quero perder
como uma flor quero-a colher

Como vejo as nuvens chorar
o sol vestir a madrugada
o ralhar da tempestade
o mar que só me tráz magia

De tudo só quero tua mão
p'ra nela me agarrar
não calculas o sofrimento
com que eu a quero agarrar
Zedlav

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

tempo que o tempo deu
o tempo que não dá mais tempo
o tempo d'um passado é já ontem
nada como o esquecimento do tempo

O tempo deu, o tempo tirou
o que era importante dele nada restou
porque o tempo deu e mudou
o passado o tempo levou

E quem com o tempo esperou
viu os dias, os meses, anos passando
e o tempo sem tempo continuou

Zedlav

Agarro um pedaço do ar
Volteio-o e largo-o
Afago meu coração
Tão velho sem amar

Tantos, tantos dias
Tantos meses na solidão
Tantas horas embalada
Numa triste ilusão

E em todo o dia que nasce
Em que o sol resplandece
Em que o mar me canta
Pergunto porque nada encanta

Abrigo-me da tempestade
Do passado, do presente
Só de ti tenho saudade
Tanta meu amor ausente

E a canção que julguei
Outrora ouvir contigo
Não mais a senti
Nunca mais cantei

E aqui me quedo só
Ouvindo o cantar do mar
Com o sol m'aquecendo
Querendo ainda fantasiar
Zedlav

O sol está quase a pôr-se
Num outro dia qualquer
Sem por ti já esperar
Por nada mais já esperar

O mundo debruça-se
Sobre si mesmo
O outono já se foi
A ferida ainda tanto dói

Á tanto já eu me esqueci
O tempo tudo levou
A mágoa diluiu-se na chuva
De mim nada mais sobrou

O vento traz-me de mansinho
As sementes de uma vida
O adeus do meu triste lencinho
D'uma vida em que só sai ferida

Hoje já não digo aquele adeus
Prescruto os longes da memória
Nesses que já nem são mais meus
A vida em mim teve a sua vitória
Zedlav

Quero andar d'encontro ao vento
Com a mão na tristeza pegar
Parar com o tempo d'advento
E por fim as lágrimas deixar brotar

Tenho um medo terrível de chorar
Sei que se o fizer não mais vou parar
Por todo o mal que me fizeram
P'la ironia do meu destino chorar

Caminhar d'encontro ao vento
Hoje por esta estrada tão só
O descrédito na humanidade foi lento
F'licidade terei eu quando só for pó
Zedlav

Meu fuso de sonhos
De tanto girar, partiu-se...
Vazio, pesadelos medonhos
O sonho á realidade abriu-se...

Deus desse á minha alma
Uma nova vida no mundo
Dizer não há tristeza que fecundo
O sonho andaria na mia alma

E aqui num sopro,
Esse tempo que corre
Grotesco e barulhento
Meu fuso quebrou-se...morre...

Cega dos céus me desnudo
Encharco meus olhos agora só
Nesse vazio tão fundo...
Rumo tão só que meto dó

Meu fuso de sonhos
Razão ainda de mia existência
Quebrado em mil pedaços
Vilmente arrancado de meus braços

Solitária agora me quedo
Meu corpo envolvo num abraço
Nada mais tenho, só me restava
Meu fuso com que sonhos sonhava
Zedlav

Numa desvairada e vã tentativa
quero tua boca formosa esquecer
no orgulho-me escudo-me evasiva
olvidar tantas traições d'estarrecer

Murcha meu jeito de ser
torno-me uma pedra carcomida
cada dia de hoje tento conceber
um eu de escrupulos desprovida

E este eco ressachando
por mia alma tão destroçada
o soluço vou abafando
mia alegria ó vida quebrada

Porquês!?...de mim tudo exigem
e eu de mim exigindo...
um voltear de página também
mas no descrédito submergindo

Fechei a porta á lua
ao sol, á brisa, ao sonho
vi a vida em mim desmoronar
com todo o mundo a presenciar

Meu moinho ruiu
o orvalho marcou caminho
nesta que já fui...
Zedlav

O batuque na madrugada
Rompe o silêncio dos matagais
A lua esconde-se nos riachos
A luz das estrelas á muito apagadas

Um tanger cadenciado
Desesperado, sofrido...
Ecoa nos ares levando
Na brisa o choro contido
Zedlav

Da capital d'Angola
Dessa Luanda chorada
Das acácias em flôr
cidade ensolarada

Quais brilhantes incrustrados
As estrelas cintilavam
Quando a noite chegava
E o luar s'espraiava
Nas águas prateadas
O cheiro a maresia embriagava

E sonhávamos com o Mussulo
Mas logo que o dia clareava
Apanhava-se o maximbombo
o maximbombo p'ra Mutamba

Eu vivia na pequena Samba
nesta Luanda que tanto amei
Luanda que um dia deixei

Esta cidade das palmeiras
com seus cheiros m'embriaguei
terra de lindas esteiras
das castanhas do maranhão

Da rebita, do merengue
cidade que me roubou o coração
Terra exótica e dengue
Zedlav

Quisera poder oferecer-te
Um pedaço do lua
Ou mesmo o arco irís
O som do batuque na noite
Ou aquele céu azulão
D'uma terra que nos amou
E que nos ligou para sempre
Mas minhas mãos estão vazias
Apenas te posso agradecer
Esse poema tão belo
E continuar a dar-te
A minha amizade eterna
Zedlav

O mar rebenta lá em baixo
num baile incessante
beija os rochedos
abraça-os
e a espuma esvoaça
pintalgada p'los raios de sol
que pouco a pouco
mergulham num derradeiro
abraço ao mar
a gaivota nos céus
espreguiça-se planando
o dia está morrendo
com ele também eu
de saudade...
o manto negro da noite
a pouco e pouco vai cobrindo
minha tristeza nela s'aconchega
Zedlav

Viajo no meu sonho
Outra coisa não mais tenho
A vida esse canto enfadonho
Dela poesia não mais obtenho

Vagueio meu sonho vadio
P'las ruas de um mundo
Cujo conhecimento tardio
Leva-me a imaginá-lo mais a fundo

Sou uma triste viajante
Cujo assento ao lado, vazio
Preencho com um silêncio sonante
Neste meu tocante desvario

Meu sonho viaja oprimido
Por este amor tão recalcado
Quisera tão sómente o zunido
E não um ser tão marcado

O término desta viajem
Eu sei sempre e já de cor
Quisera a sonhada vertigem
Tanto a pedi com fervor
Zedlav

Lentamente
vergo-me...ergo-me...
já não sei bem
quero-me afundar
colher uma flor
olhar as nuvens
e ver nelas
como antigamente
desenhos que m'encantavam
afundar meus pés
na areia molhada
caminhar
lentamente
enquanto a melodia
preenche
meus pensamentos
ou voltar
voltar p'ra África
meu pecado
meu grande amor
virar costas a tudo
e partir
para nunca
nunca mais voltar
deixaria de ser
uma desenraizada
o sol voltaria a brilhar
e eu erguer-me-ia
e voltaria a ver
os desenhos nas nuvens
Zedlav

Estiquei a mão
no nevoeiro
para a tua agarrar
e perdi-me...
tua mão não encontrei
só o nevoeiro em meu redor
ainda teu vulto vislumbrei
ténuamente...
perdendo-se na neblina
chamei-te...até rouca ficar
o dia fez-se noite
as estrelas não apareceram
o luar vestiu-se de luto
a brisa leve veio colher
tua alma
e levá-la
para esse mundo da luz
onde as estrelas moram
e eu, nem tive tempo
nem a oportunidade
de uma adeus
hoje tudo é saudade
a neblina recolheu
a mão que estiquei
recolhi-a
para as contas de meu rosário
contarem por ti

Zedlav

Era tudo tão azul
Quando p'ró céu olhávamos
Sonhos e quimeras tecíamos
Sobre esse fundo azul

Azul eram as promessas
Que fazíamos com inocência
Corríamos atrás delas
Na nossa adolescência

Azul nosa vida
Plena de alegria
Não sabiamos
O que era a nostalgia

O azul tornou-se baço
Com o correr do tempo
Mais e mais escureceu
O azul escuro prevaleceu
Zedlav

Meu fio de sonho
Vai dobando, dobando
Silenciosamente...
Os dias vão passando

A dobadoura vai rangendo
Com tantos anos passados
O tempo de vida encolhendo
Sonhos, tantos fiados

E o sonho que m'impregna
Que meus dias comanda
Esvai-se entre meus dedos
Sem já os conseguir reter

A vida tão pouco já me dá
As surpresas já não existem
Só memórias d'um tempo distante
Comandam-me ainda o instante
Zedlav

E quando pensamos
Que chegamos ao fim
Desta imensa caminhada
Eis que nos surge
Aquela mão amiga
Estendida
E quando pensamos
Que tudo já é tão distante
Que nossas mágoas
Já nem amigos tem
Para as reconfortar
Eis que nos surge
Aquele ombro amigo
Para nos reconfortar
E acolher
Jamais o vento
Me segredou
Que afinal o som do batuque
Ecoando pelos mares
Pelas colinas e vales
Secariam meu orvalho
E me traria amigas

Zedlav

Obrigado por teres chegado
Assim este caminho velhinho
Custará menos a trilhar
Menos só quando acompanhado

Entrei no sanzalangola
Com meu coração a transbordar
De uma alegria infinita
Ia meus conterraneos encontrar
As palavras caladas soltaram-se
Meus olhos d'esperança voltaram a brilhar
Meus sonhos iam-se concretizar
Voltar por fim a todos abraçar
Os dias cairam, as noites vieram
Aquele batuque tão esperado
Ficava-se apenas p'lo orvalho
Que gota a gota escorria da tristeza
Nas mãos que tentavam em vão
Calar tanta desilusão...
E eu fiquei novamente só
Tão só como quando aqui entrei
Só que desta vez os sonhos
Eclipsaram-se, e o vazio é maior
O batuque e o orvalho
Juntaram-se no caminho
Neste caminho tão velhinho


Zedlav

A noite quieta, muda
Em mim se debruça
Busco meu sonho perdido
Nas horas que caem

Nossa história se desnuda
Tão polémica, tão escusa
Lamento ter-te perdido
Os soluços já nem saem

Á tempo que mia inspiração
Por montes e vales fugiu
Ficou um vazio no coração
Desta que nunca nada te pediu

Mudar, sim como mudei
A dor quase me enlouqueceu
Viúva deste amor fiquei
Amor jovem, jamais feneceu

E a noite quieta, muda
Que em mim se debruça
Traz a paz perdida
A esta alma tão dolorida
Zedlav

Quem me dera ter um amigo
Que minhas lágrimas enxuga-se
Que na alegria estivesse comigo
Ou sómente com ele desabafa-se

Um sonho á tanto perdido
Esse de ter um leal amigo
Talvez por tanto ter querido
Uma migalha de um amigo
Zedlav

Que momento supremo
Quando teus passos se encaminharam
Lentamente p'ro nosso encontro
Nossos olhares s'encontraram

Que momento supremo
O antes de t'encontrar
Só de pensar eu tremo
De quê? De tudo imaginar...

Que momento supremo
Quando finalmente, trémulos
Nossas mãos se entrelaçaram
E afastaram, se bem me lembro

As palavras extinguiram-se...
de mansinho!...
Em nosso momento supremo
Nossas almas encontraram-se

Este momento perdurará
Para além da vida terrestre
Não há tempo, só isso temo
P'ra perpetuar nosso momento supremo
Zedlav

Silêncio...
Impus a mim mesma
De ti, por ti, foste és
A minha linda aventura

De ti o meu silêncio
Fôste a minha alegria
Seguirte-ia até ao inferno
Minha adorada quimera

Uma quimera palpável
Que um dia abracei
Quiz a este ser amável

Minha querida gaivota
Recordarás como eu
Todos os instantes de idílio

Minha querida Gaivota capelo
Tanto doido amor foi sopro
restou uma coroa da cor dos halos...

Amei a vida contigo
Ensinaste-me a extasiar
Com tudo e nada
Mas foi bom demais amar

Zedlav

Salazar ou Dalatando
Era uma cidade pequenina
O rio Quanza passando
Minha cidade menina
Terra bela e formosa
Engalanava-se p'ra chegada
Do seu Santo padroeiro
São João o Baptista
Lá para o Alto da Rosa
Havia colégio, liceu e escola
Bem precisávamos d'um milagreiro
No Lusitano fazíamos a festita
Minha tão pequena cidade
Meu recanto de saudade
Zedlav

Meus versos africanos
choram sim nossa terra
que um dia deixamos
a terra que tanto amamos

Amor único chorado
esse que nos roubaram
o cheiro da chuva na terra seca
o som do batuque, cadenciado

o cheiro da terra molhada
o por do sol avermelhado
os sons na noite misteriosa
o nascer do sol espreguiçado

pelos montes raiando
a vida, o começo
o sol, Santa Isabel coroando
nossos sonhos florescendo

Descobrimos a amizade
o amor...
nas ruas brincámos
saltamos, dançamos

mas essa amizade
floriu desabrochou
e tornou-se saudade
e o tempo mais ainda enraizou

e aquela vida terna
um dia findou
dela somente restou
uma forma de dor eterna
Zedlav

Palavras veem e vão
como sonetos
do silêncio emergem
envolvem-nos de rompão
são monólogos, duetos
planam...fenecem

Quero as palavras dedilhar
qual violino fazê-las vibrar
com meu espírito afagá-las
e no ar...soltá-las

Palavras pensadas
em verso dedilhadas
saltitam as palavras
juntamo-las, afastamo-las
mas sentimo-las
por vezes quão amargas

Quero as palavras pensadas
em verso dedilhadas
voltar a agarrá-las
e em mim prendê-las

São a música do silêncio
das imensas paixões
das guerras, das dores
rimas de canções
mas elas têm cores
têm sons
têm cheiro
têm fados e amores
as palavras têm o vazio
das contradições
Zedlav

Águas que corriam no meu Muembeje
Naquele meu rio tão cheio de lágrimas
Lágrimas de antigos escravos
Que no rio suas faces e feridas lavavam
Águas que saltitavam e cantavam
Antigas canções de condenados
Canções tristes de escravos
Que embalavam os meninos
Águas que corriam no meu Muembeje
Tão cheias de dor e saudade
Das gentes que para lá foram
Das gentes que d'outras terras partiram
Para daquela fazerem sua
Águas que lavavam a tristeza
Águas que corriam no meu Muembeje
Zedlav

Vai vida, vai em busca do futuro...
Mesmo que nada mais faça sentido
Vai em busca d'um futuro melhor
Sem promessas, abraça um garantido

Aqui ficarei parada a olhar!...
E quando o encontrares,
Trá-lo pois aqui estarei
Estarei olhando o mar

Vai vida, vai e não mais voltes
Pois nada nunca é como dantes
Os sonhos desfazem-se e renascem
O destino nossas mãos tecem
Zedlav

Uma rosa branca trouxes-te
Quando tanto de ti precisei
Tua mão amiga estendes-te
Agarrei-me a ela, não vacilei

Rosa branca quiz dar
A tantos a quem amigo chamei
Fizeram-me não acreditar
Na amizade que semeei

Mas a rosa branca lá estava
Sorrindo para mim...
E eu voltei a rir por fim
Sem ela hoje já não passava

Zedlav

Sinto tanto a tua falta
Vêm os dias, as semanas
São sempre tão iguais
Tão infinitamente vazios

Busco na multidão
O teu sorriso que m'aquecia
Nas minhas memórias
O teu olhar que m'estremecia

E eu vivo o amanhã esperando
Esperando um dia te encontrar
Nessa multidão que por mim passa
Buscando ávidamente o teu olhar
Zedlav

Minha viola teima em chorar
Dela é um lamento a sinfonia
É projecção da mia alma a falar
Numa eterna agonia...

Sinto falta dos alegres acordes
Uma mistura tão colorida
De merengue e samba
Antes de eu ter sido tão ferida

Hoje as nuvens não desaparecem
Nem o sol é tão brincalhão
O arco-irís já não aparece
Vou deixar de ouvir meu coração
Zedlav

Para quê tanta ilusão?...
Abraçar-mos promessas por cumprir
Dar-mo-nos a uma relação
Só para carinho sentir

Não nos resguardamos
das intempéries, mergulhamos
cegamente...
A desilusão vergasta-nos duramente

Depois quando já não há depois
Vem um tempo dúbio
Queremos só esquecer
Mas demora até acontecer

Mesmo quando nos magoam
Belas recordações ficam
Em nosso redor elas voam
Nossa memória delas não abdicam

Fica só uma triste canção
Do afastamento da desilusão
E um medo de novamente cair
Nesse mundo belo mas cheio de contradição
Zedlav

Esperei... esperei tanto
que fui até á falésia
ver o mar em baixo
escuro, rugindo
olhei o firmamento
nele as estrelas penduradas
silenciosas...caladas
a lua olhava o mar
d'um jeito enigmático
como o teu silêncio
pesado, sem cor...
a brisa estava parada
adormecida na areia
e eu calei meu pensamento
e comunguei do silêncio
Zedlav

O Natal está chegando
O ano quase acabando
Ontem eu vi dormindo
Gente na rua com papel se cobrindo

Paro, olho horrorizada
Fico deveras desmoralizada
Como é possível eu aceitar
Tudo isto sem me revoltar

Logo após gente passa sem olhar
Eu p'ra ali fico a cismar
Como é possível isto existir
Zedlav

Uma chuva d'estrelas me cobriu
Flocos de nuvens sobre mim caíram
Ouvi os sinos repicarem
Num extase de felicidade

E não houve dia mais belo
Mais pleno de ventura
Qu'esse 1º de Janeiro
Do ano o primeiro

Todo o dia naveguei
Nas asas do deslumbramento
Não foi sonho, não sonhei
Não foi fruto d'um só momento

Foi algo mágico, dele não acordei
Recordei pormenores, não fantasiei
É pouco de felicidade falar
A esse encanto não me quero fechar
Zedlav

Ó tempo como te queria parar
só vejo o temporal da desgraça
meu leme como te queria virar
sem a dor carregar na mia barcaça

Tanto mal que vejo e nada o amaina
faz-se, rodopia como um tufão
é como uma triste faina...
mas leva a vontade do perdão

Meu leme tento endireitar
minha barcaça oscila
tento não ver e calar
mas minha vontade oscila

Queria aquecer o frio dos possessos
levá-los a um bom porto
nada valem meus arremessos
de compaixão, seu coração é morto

Minha barcaça faz-se ao mar
buscando a minha companheira
a mia solidão p'ra a abraçar
é a única que não é interesseira
Zedlav

Se eu voltasse a Salazar...
Sei que ao chegar sorriria
Meu olhar tentaria abarcar tudo
Começaria então a minha peregrinação
De rua em rua
De esquina em esquina
De beco em beco
Eu tudo escrutinaria
Eu tudo vasculharia
Buscando o passado
Os sons, os risos, as conversas
deixadas a meio...
as brincadeiras paradas...
no tempo...
As roupas nos varais
As nossas mães
Eu sei que correria
buscando
Correria chorando
A todos vós chamaria
desconsoladamente
Uma flor arrancaria
Para a guardar e mais tarde recordar
Sei que a cidade percorreria
até me sentir exausta
Sei que as paredes, os muros
Minhas mãos acariciariam
As árvores, os pássaros
Tudo enlevada eu olharia
Pois sabia que partiria
Pois da nossa cidade
Apenas e sómente apenas
Restou uma palavra
Que aos poucos se desvanece
Até que um dia morramos
Saudade...
Zedlav

Hoje tantas recordações...
De outros fins de Ano
Ainda sem perdas
Ainda juntando o dia
Aos anos de casados de meus Pais
Em que juntos ríamos numa festa pegada
Em que dançávamos até ao sol raiar
Em que aquele abraço
O do último dia era um só
De todas nós
Depois a morte veio roubar os sorrisos
A vontade de dançar
A vontade de rir
Mas ainda nos uniu mais
Mas aqueles que a morte roubou
Esses entre nós ficaram
E a tristeza neste dia
Instala-se porque vocês já não existem
Zedlav

Não é um grande pesadelo
concerteza não é insuportável
eu é que criei um modelo
uma perfeição insustentável

E esta batalha que nunca finda
de querer o que se não tem
será que me vou iludir ainda?
ou trancar-me definitavente ao que vem

Sei apenas que cada vez custa mais
mostrar ser aquilo que sou
fecho-me nesta torre gélida
d'orgulho, altivez e antipatia

Dela não me desfaço jamais
escudo meu qu'a vida criou
para que a dor e desilusão não m'atinja
dessa torre meu eu as pessoas avalia

Não deixo que brecha alguma abra
refugio-me nela e aprendi a viver
com a minha solidão e carência
mas tive de chorar p'ra aprender
Zedlav

Eu senti esse temporal desfeito
não quiz olhar a lua, tinha medo
medo da sombra qu'em mim desliza
medo terrível d'um fracasso

Tanto quiz que tudo fosse prefeito
há derrota jamais cedo
mas a intuição a qual profetiza
dizia-me d'início que era fracasso

A desconfiança em mim raiou
primeiro tão ténuamente
como um suspiro pairou
eu afastei-a brandamente

Dia a dia então reparei
que era tudo tão nebuloso
que existia algo defeituoso
parei, observei, meditei

A dor instalou-se momentaneamente
colhi-a, chorei novamente...
então abri a porta e saí
para o vento frio e na dor não caí

Sinto tanta pena, tanta tristeza
tudo não passou d'imaginação
amizade não era concerteza
era tudo fruto d'uma mera ilusão
Zedlav

O céu não é azul escureceu
a árvore de Natal p'ra ali ficou
o coração lágrimas derrama
a tristeza no Natal veio, ficou

E as arrastam-se
no Natal sem fim
prendas...a ceia tradicional
nada tem sentido neste Natal

Mãe que sem o seu filho
nem gente consegue ser
mas ele lá longe caminha
também sem um Natal ter

Meu Natal não é feliz
porque penso também em ti
em como teu Natal é infeliz
sem teu menino junto a ti

Nem tenho coragem
de Feliz Natal te desejar
o teu coração destroçado
só quer vê-lo passar
Zedlav

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Senhor

Outra forma de tudo ver
Eu tanto queria em meus olhos ter
As mágoas de todos que me rodeiam
Não mais quero que meus olhos as leiam

Como eu queria ser insensível
Se ao menos a todos eu pudesse
Ajudar e a alegria lhes desse
Mas isso é impossível

Então Senhor

Não queria ler tanto sofrimento
Porque sofro por não puder valer
Apesar de todo o meu compadecimento
Que interessa este senão deixam de sofrer

Ajudai-me então meu Senhor
Para que amor e carinho
Possa semear, sei, não lhes tiro a dor
Ajudai-me a percorrer o caminho
Zedlav

Dizei-me dos deuses Senhor
Porque nada é como queremos
Porque tudo rui sem querermos
Porque tudo tem de passar p'la dor

Dizei-me porque tudo é tão difícil
Até a alguém o perdão conceder
Ou o sorriso a um estranho dar
Porque teremos de tanto padecer
Zedlav

E a roca vai fiando
Os dias interminávelmente
Quando um caí já esse pertence
A um passado sem história

Pouco se vai disfrutando
Tudo passa vertiginosamente
Passado que já não nos pertence
Dele restam infímas memórias

E fia, fia, fia vai sempre fiando
E nós o tempo não agarrando
E quando pensamos então mudar
Já passou o porquê de tentar

E na roca vêmos então
Que da vida pouco aproveitamos
E que nela apenas passamos
Como um peregrino a pedir perdão
Zedlav

Vem o Natal, o menino
A alegria reina no ar
Porque é novamente Natal
Tudo brilha, ouve-se cantar

Tudo resplandece e a criançada
Com um brilho no olhar
Acaricia os sonhos das prendas
Que o Pai Natal lhes vai dar

Eu caminho p'la multidão
Que num frenesim corre
De loja em loja p'ra comprar
O que quer dar com coração

Escutem, os sinos tilintam
As luzes acabam de acender
As lareiras ainda ardem
É só cânticos de enternecer

Meu olhar continua a vaguear
Entre as sombras que em mim baixam
Um mar de queixumes tento calar
Porque só no Natal os risos bailam?!...
Zedlav

Como uma peregrina que de longe fosse
Queria voltar á terra que me viu nascer
A luz que outrora eu comigo trouxe
Ou algo que me fizesse das cinzas renascer

Voltar a essa terra tão distante
Que um dia a mim me viu nascer
Ser lá a peregrina por um instante
Para deste eterna saudade deixar de padecer

E esta carne que me grita saudade
E esta alma que melancólicamente s'esvai
Neste desenraizamento contra minha vontade
É a seiva desse tronco que mia alegria trai

Sou uma filha d'Angola errante
Neste mundo de Deus uma peregrina
Que desterrada mas nunca o bastante
Sem a sua terra nada a anima

Quem me dera um dia
Ainda nesta vida, meu ramo
Unir-se ao seu tronco sem ser por magia
Ó minha Angola como eu te amo
Zedlav

Hoje logo p'la manhazinha
Fui acordada por pássaros chilreando
Abri a janela e vi que o dia estava
Engalanado por um sol fortíssimo
Tudo sorria e eu sem o porquê saber
Afinal era a minha querida amiga
Que aqui voltava a escrever

Eu sempre fugi em todos
os momentos da minha vida
Por cobardia e da verdade
Eu sempre fugi...

Minha vida nuvem de fumaça
não a encaro, não me oponho
nada enfrento, nada...

E quando não mais quero fugir
da cobardia, da realidade
na realidade recuso-me a submergir

Agora já não quero fugir
vou parar...
Mas fecho-me e fujo
Zedlav

Neste país sou uma exilada
Dele nada tive, nele nada sou
Caminho por suas estradas cansada
Nele nunca nada me deslumbrou

Quanto tenho aprendido infelizmente
Minha inocência há tanto se perdeu
Tive de amadurecer rápidamente
A confiança essa há tanto que feneceu

Por vezes páro e olho tristemente
A que fui outrora e a que hoje sou
De mim nada existe tudo terminou
Esta hoje que sou tudo lhe é indiferente

Nem sombra da que eu fui
Matei essa mulher tão especial
Pois tudo para ela era essencial
Nesta tudo da vida diminui

Tive de indiferente me tornar
Altiva quantas vezes impertinente
A firmeza eu sei empregar
Mas nunca mais estive contente

Tudo eu fui perdendo
Disso sempre tive noção
Já nem fálo de meu pobre coração
Pois esse eu fui a tudo arrefecendo

Sou neste país uma exilada
Dentro de mim uma apatrida
Com o que vejo no mundo dolorida
Como me sinto por tudo tão cansada
Zedlav

Chocantes aquela imagens
De um passado tão recente
Vidas em outras paragens
Cortadas tão rente

Olhei-a e vi-me a mim
Naquele ano já tão antigo
Era um ciclo a chegar ao fim
Sem nenhum amigo

Mia alma destroçada, ferida
Repleta de sonhos trucidados
A mim ofertavam-me nova vida
Mas com os elos todos cortados

Vim de mãos cheias de nada
De coração pesado, de tudo desconfiada
Aportei neste mundo novo p'ra mim
Sempre pensando que seria meu fim

Busquei nos orvalhos da madrugada
As lágrimas que já não tinha
Nos sons da alvorada o batuque
Senti-me então por Deus abandonada
Zedlav

Lembranças, tantas...
Do dia que raiou
E a confusão estalou
Mortes, tantas...

O medo, o caos, o horror
Em todos os lares pairou
Noite e dia a paz se dissipou

E todos nós desarmados
Tentando coragem demonstrar
Crianças, adultos, idosos pasmados
Por uma guerra qu'acabava de estalar

Fui então p'ra Luanda
Mas nem comer já havia
Nem o tiroteio de casa deixava sair
Eu tinha uma imensa fobia

De lá partimos p'ra Carmona
P'ra tentar chegar ao Negage
Já nem sei quem dominava a zona
Todos então eram iguais no ultraje

Havia uma barreira na estrada
Uns bidons barrando
Do capim homens e homens saíram
Naquela noite tão estrelada

Lá nos deixaram prosseguir
E ao Negage conseguimos chegar
Minha família lá estava, consegui sorrir
E por uns tempos as lágrimas enxugar

Dali partimos p'ra Salazar novamente
Pois o Negage estava a ser bombardeado
O tempo passou tão rápidamente
Foi a última vez que todos estivemos lado a lado

Outra vez tivemos de fugir
Luanda a terra que nos acolheu
Mas p'ra Salazar tive eu de partir
Para os exames ainda do liceu

Sei que estes mal acabados
Com mais violência a guerra rebentou
Só tive tempo de chegar ao avião
E este prontamente dali me levou

Quando a Luanda cheguei
Minhas irmãs tinham partido
Nem um adeus, como chorei
Para o Brasil elas tinham ido

Pouco tempo depois soube
Que meu destino já 'stava traçado
A tristeza em mia alma não coube
Era um destino desgraçado

Mas a violência agravava-se
E eu lá tristemente me resignei
Com minha Mãe e irmã caçula
No último dia de Agosto cheguei

Logo no aeroporto de minha Mãe me separei
Nós para o Campo de Tiro, ela para Cascais
Eu que nunca longe de minha Mãe vivi
Afinal sofrimento ainda havia mais

Lá naquela pequena aldeola
Por arame farpado cercada
Meu olhar queria a liberdade
Todo o mundo m'olhava como a retornada

Os dias não passavam, arrastavam
Quando as janelas ao sol abria
Outrora os montes davam-me o bom dia
Agora o arame farpado ao sol brilhavam

Caminhava solitáriamente por aqueles caminhos
Atapetados por folhas
O cheiro da terra não era igual
E eu sentia-me tão mal

Quando saía daquele arame farpado
Por vezes até voltava a sorrir
Olhava aquele rio, aquele mar
Mas a minha esperança, era voltar

Voltar, voltar p'rá minha África
Para os meus montes, p'rá minha vida
Para os meus amigos, para o meu lar
Achava ainda que tudo estava no seu lugar

Foi então que fui p'rá pensão
Pensão Flor, de flor só o nome tinha
Um quarto exíguocom mia irmã compartilhado
Mas não havia arame farpado, era a libertação

Começou então a vida a decorrer
Era bicha p'ra comer, bicha p'ra recenssear
Eramos os retornados sem nenhum haver
Devíamos sempre e sómente agradecer

Consegui um emprego arranjar
Era voluntária numa instituição
Tantos casos horríveis presenciei
Que as lágrimas p'ra sempre sequei

Minha Mãe exemplo de coragem
Jamais a vi ou ouvi lamentar
A meu Pai e a nós também
Jamais nos deixou desanimar

Um novo lar conseguiram
Um pouco diferente do que deixámos
O amor e a alegria nele astearam
E então uma nova vida começámos
Zedlav

E esta voz dentro de mim falando
Como o búzio que nos trás o mar
Todo o santo dia recordando
Histórias velhas d'outro lugar

E esta voz da que um dia fui
Segredou-me saudades sem igual
Histórias d'um amor quase fatal
Toda uma vida de lembranças flui

E este silêncio que me fala
Melancolicamente, tão baixinho
Soluça sonhos que cala
Enquanto pelo mundo caminho

Quisera um sonho novo
Concebê-lo sem desventura
A voz quere-la-ia calada
Ou que viesse cheia de doçura

Porque me quedo sonhando
Uma vida presente, passada
Uma alma de sonhos tranbordando
Talvez já também resignada
Zedlav

Quero reter na mão o pensamento
Esmagá-lo como se barro fosse
Deixar então meus dedos moldar
Dar-lhe outra textura, outra expressão

E o milagre desse momento
Torná-lo-ia visível e palpável
Deixá-lo-ia então falar
Mesmo desse amor de perdição

Dar forma a um sonho tristíssimo
Torná-lo tenuíssimo
Dar uma forma ao sonho de loucura
Torná-lo leve e cheio de frescura

Nada mas nada se retem na mão
Nem sonhos, nem pensamentos
Nem uma vida de paixão
A vida são sómente breves momentos
Zedlav

Quem serei eu, uma poetisa?
Ou aquela garota ainda
Que queria o mundo agarrar
Cheia de sonhos para concretizar

Minha face morena já não lisa
A mágoa precoce a funda ruga
Esculpiu-as p'ra eu lembrar
Que a vida só nos sabe magoar

Quem me dera então ser poetisa
Garôta as lágrimas não enxuga
Sou sómente aquela que no meu tear
Fuso meus sonhos d'encantar

Quem sou? Alguém que ninguém
Jamais há-de lembrar
Uma sonhadora também
Mas ninguém p'ra alguém recordar
Zedlav

Venham estrelas do firmamento
Quero-vos contar de meu amor
Tão grandioso qu'o mar levou
Mas tão belo qu'a recordação ficou

Ide então contar algures
Que na terra houve tal amor
Segredem-no há lua
Já que nunca eu fui sua

Cantai então esse amor eterno
Nos acordes coloridos do arco irís
Nuvens juntem-se chuva caia
Deixai o sol brilhar, brilhar

Pois um amor assim é eterno
Cantado sómente por colibris
Sonhos que meu tear fia, fia
Como é sublime amar
Zedlav

A pouco e pouco as ruas iluminam-se
Os enfeites de Natal cintilam
Falando d'uma época de f'licidade
D'amor, alegria, de calor

As prendas em casa acumulam-se
A chuva as estradas molham
O frio intenso varre a cidade
Todo o mundo tenta distribuir amor

Porquê só nesta época?
Durante todo o ano até s'esquecem
Do valor que cada um tem
E por um nada se aborrecem

Vivemos um ano inteiro correndo
Vivemos?A isso não chamaria
Até nesta época tempo não tendo
Por isso no ar há tanta nostalgia

Porque o tempo perdemos
Têm de haver enfeites cintilantes
Para a terra nos chamar
E podermos finalmente acalmar

E então o Natal chega
Sem vós minha família adorada
Sinto-me tão triste, tão só
Que só quero qu'a quadra
Não seja demorada
Zedlav

quando a noite escura como o breu
Desce sobre a planície e sobre o mar
A saudade dentro de mim tudo invade
O caos instala-se contra minha vontade

Ergo meus olhos p'ro céu estrelado
Numa busca de paz incessante
Como te quero a meu lado...
Meu grande amor, meu amante...

Mas a noite tráz o silêncio, o vazio
E eu vagueio só por este lugar
Meu pensamento solitário transvio
P'ra um dia a dia sem lugar p'ra amar

E eu busco nessa linda recordação
Um alimento p'ra meu espirito
E nessa bela e mágica canção
Voa minha alma até ao infinito

Não quero deixar de embalar
Minha alma nessa lembrança
Como foi belo e de encantar
Esse tempo de menina, de criança
Zedlav

Ser amigos p'ra sempre
uma imposição
mas a vida voltou a sorrir
no céu o sol voltou a bailar
e o tempo para sempre
não mais é contradição
espero o que há-de vir
com mia alma a cantar
se alguém perdeu
concerteza não fui eu
talvez tu
ah mas não esperes
que um sentimento morto
desabroche no roseiral
tudo na vida é do tempo
e nele o esquecimento
esse tempo tão cinzento
passa, passa tudo com o tempo
Zedlav

Porque a morte não é bastante
Para que a raiva se dilua
Este pensar constante
Não faz que este sentir diminua

Irrita, desconcerta
Voa, este mundo de maldade
P'ra eu ter uma mente aberta
Quero deixar de mim ter piedade

E quando consigo que tudo finde
Vem novamente a infâmia
A insegurança, a contradição
Como poderei eu dar o perdão
Zedlav

Alguém na minha janela bateu
Eu trémula m'aproximei
As portadas ao temporal escancarei
Era o vento, a chuva que bateu

Trinta anos com este destino
Sem nenhuma canção
Com as portadas trancadas á paixão
Sem ouvir as alegres badaladas do sino

Esses que pelo espaço ecoam
Dando as boas vindas ao amor
Zedlav

Talvez sufocando na mortalha
Toda esta tristeza infinita
Desilusão...derrota na batalha

E se o sonho última lágrima
derramada e não colhida
não façamos qual drama
na eminente despedida

Caíam lágrimas e não a vida
pois a vida é sol, é lua
é o cair da hora, do som
melódico, Fé minha musa

Comédia e drama se semeia
na investida da derrocada
muita lenha mais ateia
sofrimento desta deserdada
Zedlav

O mar é como uma flauta mágica
As ondas como notas cheias de candura
O vente leve
Soprava contra a praia
O sol uma estrela brilhante
Brilhante e cheia de calor
Queimando
E tu mulher, embriagada
Com tal paisagem
Foste avançando
Teus pés se enterrando
No ouro da praia
Caminhando vagarosamente
Como que saboreando
A tua vitória perdida
Sentiste teus pés molhados
Pelas ondas cristalinas
Que te davam as boas vindas
Ouviste um suave murmurio
Do mar chamando-te
Para sereia te tornares
E a onda cristalina
Ofertou-te a coroa de espuma
Sereia de eterna paz
Não mais choras-te
Zedlav

Vou lendo, lendo...
Página a página devorando
Sugestões querendo
Antes que esqueça o memorando

Fecha-se a noite, abre-se o dia
Que impressão me redime
Olho o mar, busco o sol, o alento
Quanta esperança baldada

Que é da alegria - o vulto dela
P'la minha porta nunca passa
Se passa é fugaz, como conhecê-la?

Quanta esmola vertendo
Ninguém a alcança, nada alumia
A procissão segue lá longe

Os humildes rastejando
Suas mãos Deus procuram- seu guia
Os fortes inculcam o mal qu'ingente alastra

E o sonho dentro de mim
Qual preságio temeroso
Maldições sem fim
Neste mundo pavoroso

Dá-se honras a promiscuidade
Alardeiam mulheres sua imoralidade
Choram nossos princípios de civilização
Asteiam sua bandeira de conspurcação
Zedlav

Tu serás o farol do meu remorso
Penitenciando-me a cada dia
Por eles ao peso vergada
Já sem a luz que m'aquiete

São tantos que vergam meu dorso
Caminho para esse farol que m'alumia
Por meu doloroso fardo arrastada
É como a mortalha que se veste

Meu remorso que sabor horroroso
E este sol, é a roca a fiar-me
E esse pensamento pavoroso
Será meu farol a testar-me

Tu serás o farol do meu remorso
Tu és a minha contricção
Persegue-me esse som d'outrora
Alquebro-me, encurvo-me...

Jamais terá fim meu remorso
Jamais serei digna de perdão
Já não antevejo a aurora
Sómente de mim apiedando-me
Zedlav

Ainda te procuro na multidão
No silêncio de meus pensamentos
Será que perduro no teu coração
Ou p'ra trás fiquei no esquecimento

Em ti fez-se dia meu olhar
Perdi-o e nunca mais o recuperei
Minha boca fez-se p'ra te beijar
Meu olfacto teus odores cheirei

O meu corpo ao vento abandonei
P'ra não ser tua para quê tê-lo
A maciez da tua mão recordarei
O teu amor é o meu flagelo

E nessa multidão em que te busco
Sei que não mais te encontrarei
Fez-se em mim crepusculo
Só tua imagem em mim preservarei

E quando tento ainda recordar
Momentos tão longinquos, como belos
As imagens esbatem-se
Minhas aguarelas a desmanchar

Perco-me na vida sem sentido
Meu norte há tanto que não existe
Só um lamento contido
E a lembrança que pressiste

Não te posso na multidão encontrar
Porque sei que não existes mais
Sómente por ti ainda posso orar
Nossos caminhos não se cruzarão jamais
Zedlav

Serei um fado a cumprir fados
Quisera moldar a noite ao dia
P'ra vaguear entre os prados
Expandir esta mia nostalgia

Quisera meu corpo aquecer
Na chama do desejo ardente
Voar na ternura e esquecer
Meu sangue ser água de nascente

De meu fado sou prisioneira
Num suplício sem fim
Mia alma outrora guerreira
Vergou-se a ele e não a mim

As noites escurecem de dia
As trevas voltam levemente
E eu já não tenho energia
P'ra as expulsar vigorosamente

Deixei-me prisioneira de meu fado
Alimento-me da tristeza da saudade
Penso tanto e tanto em meu fardo
Conheço tão bem esta verdade
Zedlav

Sinto correr, falando-me nas veias
Uma alma incompreendida
Feita de dores tão feias
Mágoa até para mim indefenida

Sou como a viuva do tempo
Seca como a areia do deserto
Em que nem a brisa nem o vento
Deixam uma paixão em aberto

Eu só quisera ser o que não sou
Outro alguém que não eu
Não esta qu'amor esmolou
Por uma história que feneceu

Eu sou a viuva do tempo
Reclusa eterna da muralha
Da solidão, da mudez
Eu só quisera ser o que não sou

Pois em qualquer momento
Pareço que vivo numa fornalha
Quem me dera a doce embriaguez
Dessa paixão que não prosperou

Zedlav

Perguntei a uma violeta
Se meu amor voltaria
Ela sorriu há ironia
Mandou responder a borboleta

Esta bateu asas e voou
No ar ficou o encantamento
De estrelas a noite semeou
A lua mandou parar o vento

O mar juntou-se há magia
A espuma virou fogo d'artifício
As ondas coloriram-se de fantasia
Mas do meu amor nem indício
Zedlav

No meu mar há temporal
Barafusta contra a poluição
A espuma revolvida
Redemoinha no ar

Tanta sandice é-lhe fatal
Tenta ainda chamar a atenção
Porque nele há tanta vida
Que o deviamos só amar

É cinza e negra a cor
Que tinge este meu mar
As vagas cerram ainda mais
E o mar ruge...

As ondas sobem e descem com rancor
Vertiginosamente como a calar
Soluços, brados e ais
Mais uma vaga ao longe surge

É uma cavalgada desenfreada
As algas desprendem-se
E vestem a areia com um manto
É o mar alvoraçado

É um cantar este amargurado
Talvez sejam as sereias em pranto
Contra as rochas as ondas arremessam-se
É vento do oeste na madrugada
Zedlav

Aqui me quedo
De caneta na mão
Silêncio em meu redor
Sózinha, eterna solidão

Aqui me quedo
Sem ninguém, nem o vento
Nem a chuva, nem a brisa
Ninguém para falar

Ninguém a quem ouvir
Alguém que precise d'alento
Eu não sou mais precisa
Nada mais tenho para dar

Vem a noite, vem o dia
Vem o sol, estrelas, luar
E eu aqui tão sózinha
Para quê continuar...
Zedlav

Eu sou um fado humilde, um fado triste
A quem alenta o fado da desgraça
Que a duras penas subsiste
A quem a tristeza enlaça

Mutável como o tempo, hoje sou isto
Sou um fado sem sentido
Sou uma alma que ama Cristo
Para mim o resto é desconhecido

Eu sou um fado humilde, um fado triste
Que a tanta desgraça assiste
Pelo mundo vagueio errante
Um fado em tempos vibrante

Um olhar cálido, magoado
Passeia por tantos caminhos
Busca ainda algo meu fado
Nestes sítios tão velhinhos
Zedlav

Como num conto de fadas
Deixei-me inebriar por meses
Em teu amor tresloucado
Com que ansia os dias buscava

Eram palavras amadas
Questões feitas por vezes
Foi minha época dourada
Foi tudo aquilo por que ansiava

Era a minha visão eldorada
Que minha vida animava
Um amor grandioso, inocente
Era o meu conto de fadas

Minha lembrança avivada
Tudo em ti m'apaixonava
Era tudo um pouco inconsequente
Nada importava, só o amor que me davas

E pensei que por mim morrias
Castelos de areis eram afinal
Nunca pensei que nada sentias
Até ao frio adeus final
Zedlav

Meu fuso de sonho
Serei eu uma visionária?
Um a um aqui os deponho
Dirão talvez que temerária

Dobo-os num novelo tecendo
Será a sombra que projecta
Daquilo que vou vivendo
Ou sómente mia alma de poeta

E o tempo grita-me estou a envelhecer
Mas algo em mim sempre e sempre gera
A vida que em mim passa a correr
Mas revivo logo chegando a primavera

Moça não sou mais, mulher ainda
Mia alma de sonhos a transbordar
Dobo, dobo mesmo sem luar
A noite para mim é sempre linda

Meu novelo é imenso
Dobo-o no meu fuso de sonhos
Nada é tão intenso
Jamais os acho enfadonhos
Zedlav

Naquele tempo, tempo que já não existe
Em que solta ao vento e aos dias
Ouvia o som da viola gemendo
Entre meus dedos a corda vibrava

Sei que a mim jamais pediste
Penso que se calhar nem vias
Eu seguia os dias querendo
Achava que o tempo não passava

Ria, com o sol brincando
Nessas tardes de minha terra
Toda uma vida em mim palpitando
Antes de toda uma nefasta guerra

Naquele tempo só eu existia
Tudo o mais pouco importava
Com minha viola eu desfrutava
Não me dava conta da agonia

Naquele tempo, tempo que já não existe
Eu era a rainha do tempo e do ar
Era a deusa do amor que aboliste
Era eu a unica dona do luar

Zedlav